Aldeia histórica de Cassacá: Populares “vacinados” a sofrer clamam pro estrada e água potável

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Aldeia histórica de Cassacá: Populares “vacinados” a sofrer clamam pro estrada e água potável

Os populares da tabanca de Cassacá que se sentem abandonados pelos sucessivos governos do país, pedem que as autoridades lhes melhorem a estrada em terra batida que liga Mampata Foreá, setor de Quebo, ao sector de Cacine e os troços que a ligam às grandes seções, à semelhança das intervenções que estão a ser feitas nas outras zonas.

Lamentam igualmente a dificuldade no concernente à questão da água potável, necessidade que tem provocado conflitos entre as mulheres. A aldeia dispõe de um pequeno reservatório montado por um projeto. Porém, muitas vezes os usuários não se entendem sobre a quantidade de baldes de água que cada uma deve catar.

Cassacá é uma das seções que constituem o sector de Cacine, região de Tombali, no sul da Guiné-Bissau. Situa-se a mais de 60 quilómetros da estrada principal (Mampata Forea) e 15 quilómetros da cidade de Cacine. É uma das maiores seções do sector e é constituída por mais de dez aldeias. No entanto, dispõe apenas de uma escola do Ensino Básico Unificado de 1ª a 6ª classe e que conta com seis salas de aulas.

A aldeia acolheu a realização do primeiro congresso do partido libertador (PAIGC) no período da luta de libertação que decorreu entre os dias 13 a 16 de Fevereiro de 1964, numa localidade que dista apenas a alguns quilómetros da tabanca.

Cassacá: Uma aldeia que vice da fantasia de “tabanca-cidade” 

A população chegou a saborear o sonho de desenvolvido que o falecido Presidente Luís Cabral transportava para as tabancas históricas, através das construções de pequenas infraestruturas para acomodação dos representantes do Estado, como também edifícios para escolas, centros de saúdes e armazéns do povo. De acordo com a explicação do velho professor local, António “Tenente” Gomes Nanque, as infraestruturas construídas naquela aldeia incluindo o pequeno monumento, devem-se à comemoração do 16º aniversário da realização do Congresso de Cassacá, em 1979.

“O Presidente Luís Cabral construi a aldeia incluindo a escola, o centro de saúde, os armazém do povo, o pequeno monumento logo à entrada da tabanca e colocou uma central elétrica para fornecer energia elétrica aos edifícios públicos. Mandou instalar também postos de iluminação pública. Cassacá estava animada e as populações sentiam alguma coisa do desenvolvimento, mas infelizmente o sonho de transformar a Cassacá de “tabanca-cidade” acabou por morrer a partir do golpe que afastou o Presidente Luís do poder”, contou o professor Nanque, que também chegou a exercer a função de director da escola.

Lembrou ainda que a central da aldeia tinha uma pequena avaria técnica em 1986 e fora levada pelas autoridades para a reparação junto de um técnico em Bissau, mas nunca mais voltou e os postos da iluminação pública e os edifícios públicos ficaram sem corrente elétrica. Contudo, sustentou que alguns edifícios como o centro de saúde beneficiaram do projeto do painel solar que agora fornece a energia elétrica ao centro e para a residência dos enfermeiros.

“O projeto do desenvolvimento de Cassacá de Presidente Luís iniciada em 1979, demostrou sinais de verdadeiro desenvolvimento desta zona porque não era apenas a aldeia de Cassacá. Falava-nos da iniciativa desenvolver o sector e todas as grandes secções com grandes infraestruturas. Sentimos e vimos isso em Cassacá! É verdade que havia algumas dificuldades no concernente a alimentação, mas nas aldeias nós produzíamos e havia condições para isso. E a grande verdade é que sentíamos a presença do Estado muito mais forte”, espelhou o professor.

Explicou que em termos de géneros alimentícios, os armazéns do povo vendiam arroz e óleo alimentar à população local, mas esta também produzia ou cultivava o seu próprio alimento. Sustentou que as dificuldades agora são enormes. E vão desde a degradação da estrada que liga a aldeia ao troço principal em Mampata Forea, como também as estradas que ligam as aldeias e até a cidade de Cacine.

Professor: “Será muito difícil desenvolver a Guiné-Bissau com sistema do ensino vigente”

Relativamente a situação da educação, o professor António “Tenente” Gomes Nanque disse que até certo ponto se compreende a dificuldade do governo que até agora não conseguiu aumentar mais infraestruturas escolares naquela aldeia que apenas dispõe de um pequeno edifício que funciona como a escola.

Acrescentou que o edifício fora construído no período da governação do presidente Luís Cabral e tem seis salas de aulas e lecciona de 1ª e até 6ª classe.

“Aqui, as crianças depois de terminarem o ensino básico, vão direto para Cacine, onde existe um liceu público e privado da igreja católica. Alguns preferem ir para a capital Bissau, mas muitos acabam por desistir devido às dificuldades. Várias vezes imploramos às autoridades e até aos deputados eleitos nestas zonas. Até a eles é pedida a ajuda no sentido de trabalharem para que haja um liceu nesta zona. Se tivermos um liceu nesta zona e pelo menos até a 11ª classe, isso ajudaria muito as nossas crianças e que depois seguiriam para a capital a fim de fazer o 12º ano”.

Lamentou a situação da greve que se regista nas escolas públicas. Segundo a sua explanação, será muito difícil desenvolver a Guiné-Bissau com o sistema do ensino vigente e que nem sequer consegue garantir o funcionamento do ano letivo completo, tendo assegurado que é preciso muito trabalho da parte das autoridades para melhorar o sistema em primeiro lugar, para depois garantir boas infraestruturas escolares bem como criar as condições para o funcionamento normal das aulas durante o ano letivo completo.

Chefe de tabanca: “Cansamos pedir ao estado! Abandonaram-nos, nem se lembraram das promessas”

O chefe de tabanca, Mustafa Bangura, disse durante a entrevista que a população sofre muitas dificuldades e padece de tudo neste momento, sobretudo de uma estrada, de um centro de saúde e de água potável. Acrescentou que a sua tabanca agora vive numa “fantasia total” com os edifícios velhos e postes da iluminação pública que deixaram de funcionar desde a década de 80.

“Cassacá é a base da construção do Estado da Guiné-Bissau, porque foi aqui que se realizou o primeiro congresso do partido para definir as grandes linhas ou estratégias da luta e projetos do desenvolvimento do país, depois da independência. Cheiramos o desenvolvimento com o presidente Luís Cabral que teve a humildade de reconhecer a história e o sacrifício desta população, mas infelizmente depois do golpe que o afastou do poder e todo o sonho morreu! Agora ficamos num abandono total e nem sequer temos  água potável para beber”, lamentou o chefe de tabanca.

Assegurou que a aldeia dispõe apenas de um pequeno depósito da água, que é permanente fonte de conflitos entre as mulheres. Segundo disse, por causa da água., “As mulheres não se conseguem entender-se por causa da água, pelo que são obrigados a intervir sempre”.

“Decidiu-se estipular uma soma de 25 francos cfa para obter água da torneira, mas o grande problema é que quem está apanhar água a sua vez tenta encher todos os baldes ou recipientes que tem em casa, enquanto as outras estão a espera e isso sempre acaba por criar conflitos. Agora foram obrigadas a reduzir o número de baldes. O dinheiro cobrado serve para a reparação da bomba, se tiver avaria técnica”, contou.

Lembrou que no período da governação de presidente Luís Cabral beneficiaram de projetos de furos da água dos recursos naturais e não sentiam grandes dificuldades neste sentido.

No concernente a situação da estrada, disse que não vai debruçar-se muito sobre a questão porque quem consegue chegar a Cassacá pode avaliar a situação daquele troço. Acrescentou que no período da campanha eleitoral são feitos mares de promessas sobre diferentes assuntos, mas que nunca são cumpridas.

“Vimos que iniciaram a obra de reparação da estrada a partir de Mampata Forea, mas não sabemos se vão chegar a esta zona ou não. Os sucessivos governos prometeram a reabilitação deste troço, inclusive alguns chegaram a falar em alcatroá-la, mas nem sequer vimos a reabilitação pontual em terra batida a semelhança daquilo que é feito em algumas zonas do país. Cassacá é Guiné-Bissau e a sua população tem direito de beneficiar de projetos do desenvolvimento do governo. Cansamos de pedir ao Estado! Abandonaram-nos e nem se lembram das promessas que outrora fizeram à população “, disse o chefe de tabanca que escusou de entrar em detalhes sobre o assunto, limitando-se a dizer que muita coisa foi conversada entre a população de Cassacá e responsáveis do partidos que prometeram desenvolver aquela zona depois da luta.

Velho Bangura: “Pelo menos que reabilitem a terra batida já que não merecemos o alcatrão”

Relativamente ao setor da saúde, informou que a aldeia tem um centro de saúde que cobre mais de três seções e todo o trabalho é feito por um enfermeiro chefe. Frisou que atualmente o centro tem apenas um técnico de saúde que faz todo o tipo de trabalho.

“Havia dois técnicos de saúde, mas uma partiu em missão e nunca mais voltou. O centro funciona com apenas um técnico. Uma pessoa para responder a necessidade de mais de três seções desta zona e imagina que cada secção tem cerca de dez aldeias e outras têm mais. Recebemos a informação que o governo tomou a iniciativa de enviar um técnico novo para o centro, isso já é bom porque vai ajudar o seu colega. O centro é pequeno e não tem camas para internamento. É só observação e parto. Estamos a 15 quilómetros de Cacine que tem um centro com a capacidade de internamento, mas pelo menos que haja um centro nesta zona com aquela capacidade”, observou.

Em nome dos populares da sua aldeia bem como de outras tabancas, pediuàs autoridades nacionais para ajudarem as populações daquela zona que abandonaram há muito, como se não fossem guineenses, tendo assegurado que deparam-se com dificuldades de várias ordens e que sobrevivem por conta própria com enormes problemas.

Apelou ao governo que pelo menos lhes ajude na questão da estrada, água potável e melhoria das condições do centro saúde, no sentido de adotá-lo com capacidade para internamento, e que também aumente o número de técnicos de saúde porque, segundo ele, o enfermeiro que ali trabalha é humano e não consegue fazer todo o serviço sozinho.

“Não queremos nada ou pedir mais alguma coisa. Apenas que nos ajudem com a escola, centro de saúde e pelo menos que reabilitem a terra batida, já que não merecemos o alcatrão …”, disse.

Carimo Camará, representante do régulo de seção de Cassacá, explicou ao repórter que sentem-se abandonados pelo Estado da Guiné-Bissau e em consequência disso nem sequer recebem apoios de grandes projetos que trabalham para o desenvolvimento comunitário. Acrescentou que os filhos de Cassacá estão cansados e inclusive sentem vergonha até de levar os hóspedes para o local histórico onde decorreu o congresso.

“Imagina o Estado não conseguiu proteger ou organizar o local onde decorreu o primeiro Congresso do partido no período da luta. Aquele sítio é um mato grande e somos nós que as vezes tomamos a iniciativa de limpá-lo, mas agora cansamos porque não vimos o interesse do Estado em preservar aquele lugar. Recebemos visitas dos turistas e de alguns estudiosos e muitas vezes sentimos vergonha de levá-los até lá, porque ao chegarmos perguntam se ainda não chegamos, ou seja, não acreditam se é ali”, lamentou.

Por: Assana Sambú

Foto: A.S

Jornal: O Democrata 

Por | 2018-12-17T11:33:30+00:00 17 de Dezembro de 2018|Categorias: Sociedade||0 Comentários

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