Angola: Albinos lutam contra estigma

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Angola: Albinos lutam contra estigma

Todos os dias, por onde quer que passem, há quem “tire onda” da sua alteração genética e falta de pigmentação. Em vários cantos do mundo, em particular em Angola, os albinos continuam a ser alvos de preconceitos racial e social.

Conviver com pessoas desse “grupo racial”, sobretudo em África, ainda é uma questão incómoda para muitos, embora se saiba que nascer albino não configura pecado mortal.

A relação com albinos chega a atingir níveis insustentáveis em países como Tanzânia, Quénia e África do Sul, onde os mesmos temem pela vida.

Estima-se que, nestes países, o corpo de um cidadão albino rende cerca de USD 350 mil, dinheiro que a maioria das pessoas da África Oriental não chega a ganhar em toda a vida.

Só a título ilustrativo, na Tanzânia, pelo menos sessenta pessoas foram, oficialmente, tidas como vítimas de bandos criminosos, número que, na realidade, pode ser superior.

Dados das Nações Unidas e da OMS referem que um em cada 18 mil cidadãos no mundo tem um tipo de albinismo, taxa que, nalgumas regiões de África, pode ser de um para cada mil e 500.

É também no continente africano onde a discriminação e a perseguição aos albinos são mais acentuadas, atingindo, muitas vezes, níveis macabros.

Ainda que mal pareça, estudos mostram que, em África, quando nasce um bebé com albinismo, muitas vezes os pais biológicos ficam chocados.

Em Angola, o problema do estigma contra esse grupo vem de largas décadas. Embora a situação não tenha atingido níveis de radicalismo, a exclusão é um facto.

Quem vive essa situação na pele enfrenta dificuldades diárias em todos os sentidos. Em Angola, a vida do albino é de dor, luta e superação constante.

A exclusão pela sociedade angolana abrange a sua inserção no mercado de trabalho, levando a Associação de Apoio aos Albinos de Angola a um veemente grito de socorro.

Só nos últimos cinco meses, por exemplo, aquela organização que controla 500 albinos, distribuídos em cinco províncias (Huambo, Huíla, Moxico, Uíge e Cuanza Sul), registou três queixas ligadas à fuga à paternidade e rejeição no enquadramento escolar.

Preconceito em alta

Ganhar espaço na sociedade, na condição de albino, é um processo duro e permanente. No país, as vítimas falam em desigualdades de oportunidade e violação de direitos.

Eduarda Fonseca, 28 anos, nasceu com albinismo (característica que herdou dos pais de pele escura) e convive diariamente com esta discriminação.

“Edu”, como é chamada, diz que não consegue arranjar emprego por ser albina e, a cada porta que bate, à procura de ajuda para a sua sobrevivência, é agredida verbalmente.

“Tenho a pele branca como marfim, o cabelo amarelado, a pele, por vezes, com irritações, e a minha visão é um pouco fraca, mas isso não faz de mim uma pessoa inválida e incapaz”, diz.

Eduarda depende da ajuda da irmã (apresenta uma condição racial diferente) para sobreviver, mas acredita que, apesar dessa limitação, algum dia conseguirá atingir os seus objectivos, principalmente trabalhar e ajudar a desenvolver o país.

André Raposo, 20 anos, estudante, também tem sido vítima de discriminação. O mesmo sofre de “bullyng” diariamente na escola e teve que anular e repetir o ano lectivo várias vezes.

Como resultado da discriminação, frequenta apenas a 8.ª classe, porque não conseguia enfrentar os insultos e, por vezes, as agressões físicas por parte dos colegas.

“Várias vezes tive de chamar a mãe para me defender, porque já não aguentava o sofrimento. Alguns nem aceitavam encostar-se à minha pele, outros me associavam ao feitiço. Hoje, sinto-me mais calmo, pois, na escola em que estou, as pessoas são mais esclarecidas”, relata.

Relativamente ao cuidado da pele, confessa ser uma das coisas que também o afligem, uma vez que não consegue ter acesso fácil aos cremes, por serem produtos caros.

Dada a falta de melanina (substância responsável para determinar a cor da pele e do cabelo), conta que o protector solar também não lhe pode faltar, bem como chapéu e óculos escuros.

“Por falta de condições, nem sempre consigo adquiri-los para proteger-me”, lamenta.

Casos de superação

Apesar de a maioria dos albinos demonstrar tristeza devido à discriminação e ao preconceito por parte das instituições e de outras pessoas, não deixa de haver relatos de indivíduos pertencentes a esta raça que tiveram sorte e foram bem inseridos na sociedade.

Nesse mar de problemas, alguns casos são apontados como exemplos de superação, dos quais os de Celso Malavoleneke, secretário de Estado da Comunicação Social, e de Manuel Savihemba, deputado da UNITA.

Quem também teve a “sorte na vida” e conseguiu resistir à pressão social foi Sofia Andrade, modelo, de 25 anos, que desfila para vários estilistas do país.

Sofia revela que, desde muito pequena, os seus pais apostaram na sua formação, para se  sentir capaz de trabalhar, embora não ser fácil.

“Desde pequena, os meus pais sempre se esforçaram, para que eu não me sentisse diferente. Mas, infelizmente, quando fui à escola e me apresentaram à sociedade, as crianças, em particular, começaram a agir de forma estranha”, narra.

Conta que foi xingada e não a queriam tocar. “Depois comecei a perceber que, mesmo pessoas mais velhas, faziam coisas que eu não entendia, mas não desisti”, vinca.

Acrescenta que a sua mãe nunca disse nada, nunca se sentou com ela para prepará-la ou dizer coisas do tipo “Você vai começar a escola, você tem uma aparência diferente”.

“Acho que essa foi a forma que eles encontraram para me educar. Não queriam que eu me sentisse diferente”, diz Sofia, que, com força de vontade, venceu o preconceito.

Contra as expectativas, foi convidada para ser modelo e hoje é o seu sustento, vive disso e é respeitada pelos colegas de profissão, considerando-se muito feliz.

Nunca pensava em desfilar numa passarela, achava que o mundo da moda era superficial, mas hoje faz sessões de fotos que ilustram a sua beleza.

Quem também teve uma história de superação é Azevedo Martins, de 33 anos.

Funcionário de uma gráfica, foi sistematicamente humilhado na infância, com apelidos “Branca de Neve”, “Rato Branco” e até “Marciano”.

Esses insultos, conta, doíam-me muito, visto que “é na infância que se começa a construir uma auto-imagem e tantas agressões verbais têm efeito devastador na auto-estima”.

“Foi muito difícil, mas jamais deixei de frequentar a escola ou de sair às ruas. Render-me à ignorância dos outros nunca foi uma opção para mim. Pelo contrário, tentava destacar-me academicamente e era excelente em diversas disciplinas”, faz saber.

Afirma que, com o avançar da idade, os insultos diminuíam, embora nunca tenham cessado; mas ganhava cada vez mais respeito, devido ao seu nível académico. Graças à formação académica, conseguiu emprego, porque foi persistente.

Hoje, Azevedo leva uma vida produtiva, de muito trabalho, respeitando sempre as suas limitações visuais e de exposição ao sol, para não prejudicar a saúde.

Vítimas pedem protecção

A propósito desses problemas, o presidente da Associação de Apoio aos Albinos de Angola, Manuel Vapor, afirma que muitas dessas dificuldades vividas pelos seus associados decorrem da falta de uma Lei que os proteja em Angola.

“Não há Lei ou mecanismo criado pelo Governo para facilitar o acesso dos albinos ao ensino, a nível de base, médio ou superior e ao mercado de emprego”, lamenta.

Declara que a discriminação a que têm sido sujeitos é bastante grave, sobretudo nas  escolas, onde há casos de alunos que sofrem bullyng.

Manuel Vapor, que falava no quadro do 13  de Junho (Dia Mundial da Conscientização do Albinismo), acrescenta que muitas dessas vítimas têm mau desempenho porque lhes é negado o direito de estar em lados estratégicos, mesmo tendo dificuldade de visão.

Relativamente à assistência médica, lamenta o facto de não existir uma orientação a nível superior, para a compra de medicamentos e tratamentos hospitalares, situação que agrava os problemas de pele entre os albinos e resulta, muitas vezes, em cancros da pele.

“O cancro da pele constitui o problema primário que leva muitos albinos à morte”, refere o associativista, sublinhando que o aumento de mortes de albinos se deve, em parte, às dificuldades no acesso aos protectores solares, cremes e pomadas.

A esse respeito, o jurista Esteves Cambundo afirma que o ordenamento jurídico não é carente de normas protectoras do albinismo.

“Mais do que uma Lei ordinária, é a própria Constituição da República de Angola que já prevê, nos termos do n.º 3 do artigo 23º, sobre o princípio da igualdade, dispondo que “ninguém pode ser prejudicado, privilegiado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever, em razão da sua cor”, argumenta o causídico.

A seu ver, a observância deste princípio constitucional deveria ser suficiente para disciplinar a forma como cada um deve lidar e encarar o problema dos albinos. Esteves Cambundo refere que, se a pretensão de criação de uma Lei se estriba numa suposta lacuna legislativa sobre a questão, à partida, não apadrinha tal intento.

Médicos falam em prevenção

Enquanto se discute sobre a pertinência da criação de um novo instrumento legal, a classe médica aponta os melhores caminhos para os albinos evitarem contrair doenças da pele e eventuais casos de cancro que comprometam o seu futuro.

Segundo a dermatologista Ana Carmona, devem fazer consultas de dermatologia periodicamente, para se prevenirem das alterações na pigmentação e na área ocular.

Explica que o albinismo é uma condição de natureza genética, devido à deficiência de melanina (pigmento responsável pela coloração da pele e protecção contra a acção os raios ultravioletas), sublinhando que os albinos são altamente susceptíveis aos danos causados pelo sol.

“Apresentam, frequentemente, envelhecimento precoce, danos actínios e câncer da pele, ainda muito jovens”, esclarece, sustentando não ser incomum encontrar albinos na faixa dos 20 a 30 anos com câncer da pele avançado, especialmente os que moram nas regiões quentes e se expõem de forma prolongada e intensa à radiação solar.

“Com certas medidas e cuidados, podem melhorar a qualidade de vida”, explica.

“Como as pessoas com albinismo apresentam também alterações oftalmológicas, como visão subnormal, estrabismo, catarata e nistagmo, é importante que passem por consultas com médicos oftalmologistas e façam uma suplementação com vitamina D, para evitar alterações ósseas e imunológicas”, aconselha.

Em contrapartida, nem sempre esses cuidados são levados em prática, por falta de condições materiais, sociais e, nalguns casos, psicológicas, o que leva a sociedade a uma ampla reflexão sobre o problema e a condição dos albinos.

Afinal, tendo eles os mesmos direitos e deveres de qualquer outro cidadão, quando deixará a sociedade, no mundo e em Angola, em particular, de os ver como “instrumentos do mal”?

Fonte: Angop

Por | 2019-06-12T06:25:18+00:00 12 de Junho de 2019|Categorias: Sociedade||0 Comentários

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