Artistas transformam garagens em galeria a céu aberto em ilha cabo-verdiana

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Artistas transformam garagens em galeria a céu aberto em ilha cabo-verdiana

Dezoito garagens em ilha cabo-verdiana, cujos arredores serviam para prática de sexo, consumo de droga ou depósito de lixo, foram as telas para 22 artistas, que as transformaram numa galeria a céu aberto e agora são grande atração turística.

Pertencentes à Câmara Municipal de São Vicente, o bloco de garagens fica no bairro de Monte Sossego, o mais populoso e um dos mais nobres do Mindelo, e são arrendadas aos moradores, entre eles do denominado Prédio 2000, um imponente edifício de nove andares mesmo em frente, que é avistado a partir de quase todos os bairros da cidade.

E foi precisamente nesse prédio que há 19 anos Baltazar “Balta” Andrade comprou um apartamento com vista para as garagens, que já davam sinais de alguma degradação.

Da janela de casa recordou que via de tudo um pouco, como prática de sexo, consumo de drogas, depósito de lixo ou vandalismo.

Por isso, sempre quis fazer algo para mudar aquela imagem. Emigrou para os Estados Unidos da América e em Nova Iorque um prédio de vidro grafitado chamou-lhe a atenção e percebeu que queria fazer igual em Cabo Verde.

A ideia ficou em ‘stand by’, até ao ano passado, quando regressou ao bairro onde nasceu e cresceu.

“Disse que era agora ou nunca mais. A minha mulher deu-me coragem e arranquei com este trabalho”, revelou à agência Lusa o morador e antigo praticante de ténis e futebol.

Sabendo de antemão que não iria ser uma tarefa fácil, o mentor começou a juntar os artistas de São Vicente um a um, bem como os estudantes da Escola Internacional de Arte (M_EIA), para todos pintarem “Uma parede de cada vez”, nome que deu ao projeto.

Depois de horas e horas e dar pinceladas, o resultado está à vista de todos, com imagens de desportistas, músicos, carnaval, o meio ambiente, mensagens positivas de apelo à paz, respeito, e várias homenagens à ilha de São Vicente e suas gentes.

“Agora aqui é um centro turístico, podes ver pessoas de madrugada a fazer fotos, o que me dá muito prazer”, salientou Balta Andrade, que não esqueceu o apoio dos vizinhos.

“Os vizinhos diziam-me que tinham vontade de fazer este trabalho mas faltavam-lhes coragem”, disse, indicando que teve ajuda de algumas empresas e de pessoas amigas e próximas, mas que 90% do financiamento para o projeto saiu do seu bolso.

“Para mim, o problema não é a despesa, mas sim a mensagem. Isso é que é o mais importante, porque eu já sabia quanto é que iria gastar nestas garagens”, salientou o morador, recordando que durante três semanas deitou-se sempre de madrugada e chegou mesmo a ficar doente.

A parte mais difícil está feita, mas Balta Andrade não quer ficar por aqui e já está a ser incentivado pelo vizinhos para pedir nova autorização à Câmara Municipal, agora para fechar alguma das ruas e criar um espaço de convivência entre os moradores.

“Quando me disseram isso, senti que tinha feito uma diferença no meu país”, suspirou Balta, que espera que ideias do tipo sejam implementadas em outros bairros da ilha e de Cabo Verde.

Quem também viu o antes e o depois das garagens foi Fernando da Cruz Pires, mecânico de automóveis de 49 anos, natural do bairro de Fonte Inês, mas que trabalha em Monte Sossego há cerca de 30 anos.

Primeiro fez serviços de manutenção a dois carros de um morador do bairro, mas agora é o mecânico principal numa oficina montada precisamente numa das garagens.

Fernando recordou que a infraestrutura foi pintada no início da sua construção, mas nunca mais recebeu qualquer retoque.

E quando Balta levou os artistas todos para começar a desenhar, Fernando disse que não ficou apenas a ver, também ajudou em outras coisas e chegou mesmo a dar umas pinceladas.

E o resultado não poderia ser outro. Disse à Lusa que o espaço ficou “mais emblemático” e hoje é visitado por mais gente.

“Há gente que não tinha visto por aqui há 20 anos”, afirmou, esperando que a galeria a céu aberto atrai mais clientes para a oficina de mecânica automóvel.

Uma das figuras grafitadas numa das paredes é do futebolista internacional cabo-verdiano Josimar Dias (AEL Limassol, Chipre), o Vozinha, um filho de Monte Sossego, que foi entrevistado pela Lusa no momento em que fazia uma visita às obras de arte.

“Acho que há coisas que não conseguimos expressar em palavras, não estava à espera, não conhecia o Sr. Balta de nenhum lado. É uma homenagem bonita, que agradeço-lhe do fundo do coração”, expressou o futebolista, que ainda assim lamentou a “falta de reconhecimento” no país.

Considerando que o projeto é bom para o bairro e para toda a ilha de São Vicente, o guarda-redes, que em Portugal defendeu a baliza do Gil Vicente, considerou que a ideia deve ser levada a outras zonas, para homenagear outras figuras emblemáticas.

“É algo bonito, que chama atenção não só das pessoas de São Vicente, mas também dos turistas e é uma forma de aproveitar as paredes que às vezes ficam velhas, a degradar, e é uma forma de embelezar a cidade e as zonas”, frisou o atleta, de 33 anos.

Vozinha, que contribuiu com oito mil escudos (72 euros) para o projeto, apelou a uma união de esforços em São Vicente e em Cabo Verde para iniciativas do tipo.

“Se cada um de nós fizermos um pouco, será muito, mas se todos ficarem à espera que os outros façam, nunca chegaremos a lado nenhum”, sustentou o guarda-redes cabo-verdiano.

Fonte: Lusa

Por | 2019-09-02T06:29:14+00:00 2 de Setembro de 2019|Categorias: Cultura, Sociedade||0 Comentários

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