Campeã mundial de jiu-jitsu gosta “de vestir o kimono com as bandeirinhas de Angola

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Campeã mundial de jiu-jitsu gosta “de vestir o kimono com as bandeirinhas de Angola

Seis dias por semana, uma a duas horas por dia, é o tempo que a pequena “grande” Kiriana Neto, de 7 anos, campeã mundial de Jiu-Jitsu (versão brasileira), categoria infantil (25 quilos), faixa amarela, dedica aos treinos.

De poucas palavras, a primeira de duas filhas do casal Iuri e Nsoki Neto disse ao Jornal de Angola que pretende ser ginasta e médica, por gostar de cuidar de crianças, em particular, da irmã mais nova, Kaia, de 4 anos.

A prática do desporto começou em tenra idade, revelou o pai, Iuri Neto. Ainda mal falava, quase a completar três anos, decidiu matricula-la no ginásio, a fazer kick-boxe, mas por conta do impacto, optou por uma modalidade mais de rua.  Por ser muito afectiva, sempre que regressava da creche, tinha arranhões.

Segundo o progenitor, ela precisava de aprender a defender-se. Aos poucos, ganhou paixão pela actividade física em geral. Após os treinos, é incapaz de estar quieta e quer sempre ganhar. A superação permanente é a meta perseguida. Kiriana tem uma jornada diária, que começa às 6h30.

Por ser muito vagarosa, ao preparar-se e a comer, segundo o pai, leva muito tempo. Após a refeição matinal, a campeã segue para escola, em Talatona, onde permanece até perto das 14h00. De regresso a casa, lancha e assiste os desenhos animados.

Às 17h00, acompanha o treino da irmã e uma hora depois é a sua vez de pisar o tatame, nunca sem antes fazer cross-fit. Segundas, quartas, sextas e sábados são reservados ao Jiu-Jistu, enquanto às terças e quintas é a vez da ginástica.

Por força do hábito, mesmo ao domingo, pede ao pai para ir ao ginásio, onde salta corda e faz flexões. Mas nem sempre é bem sucedida, pois a mãe, a cantora Nsoki, impede-a algumas vezes de treinar nestes dias.

Quando de férias, Kiriana chega a fazer 11 a 12 treinos por semana. A menina é muito reservada. Durante o treino é a que menos fala. A lutadora é descrita pelos pais e treinadores como atlética, competitiva, meiga e humilde.

Histórico

Sem nunca esconder o desejo de vencer e brilhar, Iuri Neto contou que enquanto atleta, Kiriana sempre terminava os torneios no pódio. A prestação alcançada nas distintas provas obrigaram os pais a inscrevê-la no Campeonato Africano de Cape Town, África do Sul, onde se sagrou campeã africana, em Março último.

“Prometi-lhe e cumpri. Ela ganhou os dois últimos torneios em Luanda e no Africano fez o pleno. Competiu com uma atleta sul-africana de nove anos. Lutou numa categoria acima”, disse Iuri Neto.
Com a conquista continental, Kiriana elevou a fasquia a nível pessoal e exigiu ao pai a presença no Mundial.

“Ela gosta de vestir o kimono com as bandeirinhas de Angola. Representar o país é a meta dela. Colocou na cabeça que as mulheres angolanas são as mais fortes do mundo. Ela acredita nisso e não admite que lhe digam o contrário”, explicou.

A intenção de inscrevê-la no Campeonato do Mundo aos poucos foi sendo reforçada pelos amigos do pai e treinadores. Tanto o fizeram, que Kiriana acabou inscrita, porque acreditaram no talento, embora fosse muito dispendioso.

“Estamos a falar de despesas acima de dois milhões de kwanzas. Na categoria dela, não há rendimentos. Felizmente, o título Africano despertou o interesse da Sonangol. A empresa custeou tudo. O técnico não foi, porque o passaporte só tinha validade de quatro meses. A exigência é que tivesse mais de seis”, esclareceu Iuri Neto.

Peripécias marcaram a conquista em Abu Dhabi

Uma semana antes do campeonato, Kiriana adoeceu e perdeu cerca de dois dos 25 quilos. Na altura da pesagem, já no palco da competição, a organização percebeu que a menina e a lutadora brasileira encontravam-se em categorias distintas, por causa da diferença de peso.

Assim, a organização sugeriu atribuir medalhas a cada uma delas, mesmo sem competirem. Explicada a situação, aos choros, a atleta angolana negou-se a regressar a casa sem pisar o tatame: “vim aqui para lutar. Não quero essa medalha de ‘batota’. Já estou a aquecer”, disse, citada pelo pai.

Diante da intransigência da filha, Iuri Neto pediu a organização para equiparar a categoria de ambas.

“Naquela hora, fiquei apreensivo. A adversária é filha de um mestre do Jiu-Jitsu. Tem muita experiência internacional. Podia lesionar-se. A mãe também ficou receosa. Na véspera da competição, fez apenas dois treinos. Ela tem uma mentalidade adulta; não se deixa abater facilmente”, destacou.

Sem querer parecer arrogante, o pai afirmou ser muito confiante em relação à Kiriana e garantiu que, se uma menina “faixa amarela”, com o mesmo peso e idade, decidir lutar com ela, terá muitas dificuldades em vencê-la.

O progenitor segredou parte da conversa com a filha, depois do combate:  “Depois de vencer a brasileira, ela disse que, se a Hireles, a sua melhor amiga, estivesse no Mundial, também seria derrotada. A amiga é a principal adversária, pois conhecem-se bem. Ambas treinam com muita seriedade, são focadas. Na faixa delas, são as únicas meninas e estão habituadas a lutar com rapazes de 50 quilos, embora tenham 25”.

Iuri Neto não esconde o desejo de ver a filha brilhar nos estudos, e acredita que ela mesma tem noção disso.

“Se tirar uma negativa, não há treinos, nem campeonatos. Passamos-lhe a ideia de que a vida é feita de altos e baixos. Ela venceu agora, mas amanhã pode perder e quando isso acontecer não deve baixar a cabeça. Orgulho-me por ela preocupar-se com o próximo. Recentemente, pediu para elegermos cinco crianças para serem bolseiras na academia. Estamos a incutir valores a todos os nossos ‘filhos’ aqui no ginásio”.

Em relação às felicitações, por causa da conquista do título Mundial, o tutor explicou que algumas não o fizeram feliz.

“Não quero parecer ingrato. O Presidente e o Vice-Presidente da República, tão logo tomaram conhecimento, em menos de 24 horas manifestaram-se. Agradecemos muito. As demais, sinceramente, não esperávamos. Dois atletas ganharam o bronze e não foram tidos nem achados. As instituições de direito pouco ou nada têm feito para apoiar”, desabafou.

Por sua vez, o técnico Américo dos Santos afirmou que foi feita uma preparação específica para o Mundial, mas sempre dentro do estilo de luta da Kiriana.
“Comigo ela trabalha a técnica. Com a professora Joana e o Tião faz um pouco de cross-fit kids e treino funcional. Ela é muito disciplinada e dedicada. É incasável. Desejo que continue focada nos estudos e na modalidade”, realçou.

A amiga Hireles, sete anos, disse que não percebe “a dimensão” do feito alcançado pela outra, mas afirmou que gosta de treinar e brincar na companhia de Kiriana.
“Conhecemo-nos bem. Ela é forte, corajosa e também muito atenciosa com os outros. No ginásio, demonstramos força e coragem. Às vezes, brincámos, ‘apanhada’, ‘escondida’ e ‘salva ova’. Ela não faz batota. Quando competimos, alternamos as vitórias e as derrotas”, disse a pequena.

A campeã mundial

Kiriana Neto afirmou que lida bem com a irmã, embora a mesma grite quando tem de fazer tranças. “Dou-lhe muito carinho. Gosto muito dos pequeninos, por isso quero ser médica”.

Para manter o peso ideal, a campeã é muito exigente consigo mesma. A canja é a comida preferida, mas revelou apreciar também a lasanha e o esparguete. Saladas, carne grelhada e batata frita figuram na mesma lista. Ice Tea e Coca-Cola são as bebidas eleitas, mas o leite é dispensado. À semelhança de muitas meninas, o rosa é a cor predilecta.

Questionada sobre o combate, Kiriana disse:
“Antes da luta, eu estava nervosa. Mas depois passou. Ela estava a fazer uns truques de espargata, mas não tive medo. Quis assustar-me, mas não conseguiu. Confio em mim e sabia que iria ganhar. Já avisei o pai que quero participar noutros campeonatos”.

Relativamente ao comportamento na escola, “não faço muito barulho. Gosto muito de matemática”.
A cantora Nsoki, mãe da lutadora, disse que, além das actividades físicas, a menina gosta de ver filmes, ler, brincar e pintar. A mãe não vê neste desporto perigo para a filha.
“O Jiu-Jitsu ajuda as crianças a controlarem as emoções. Portanto, não há preocupações neste sentido. A modalidade transmite autoconfiança e domínio.

Ela sofreu bulling na escola. Agora sabe defender-se. É muito meiga, mas torna-se agressiva no tatame. É muito boa aluna. Despacha sempre os trabalhos de casa e recebe muitos elogios dos professores”.

Reportagem: Jornal de Angola

Por | 2019-04-29T11:12:15+00:00 29 de Abril de 2019|Categorias: Desporto||0 Comentários

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