Gil Moreira quer mais pessoas a tocar cimbôa

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Gil Moreira quer mais pessoas a tocar cimbôa

Através da tradição de narração oral e o resgate da tradição de tocar cimbôa, o músico, actor e encenador Gil Moreira quer ver mais pessoas a tocar a cimbôa.

Gil Moreira é um exímio tocador de cimbôa que está a formar os jovens para aprender a técnica de tocar esse instrumento musical, que vem desde o início da colonização e que nos dias de hoje está um pouco esquecido.

O activista cultural explicou que o projecto “Cimenteira da Cimbôa” conta com o apoio do Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas. “Trata-se de uma tradição oral que é a contação de estórias, um processo de dar nova visibilidade, nova oratura naquilo que é um ritual de contação de estórias”.

Este projecto de recuperação da cimbôa surgiu no âmbito do edital lançado pelo Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas, onde já foi confeccionado algumas cimbôas. “Queremos ter mais cimbôas para distribuir aos vários grupos que pretendemos formar no país”.

O objectivo deste projecto, conforme Gil Moreira, é resgatar a tradição de tocar cimbôa. “Temos jovens e outras pessoas como artistas e músicos que estão interessados em aprender a tocar”.

Este projecto começou na ilha de Santiago, mas o activista cultura quer levá-lo às outras ilhas. “Começamos na ilha de Santiago e depois queremos chegar às outras ilhas, mas o objectivo é abranger primeiro a ilha de Santiago como ilha mãe da cimbôa. Há pesquisas que mostram que, ligadas ao batuque, a cimbôa existia nas outras ilhas, como São Vicente, por exemplo, que tinha tocador de cimbôa”.

“Mas hoje em dia a cimbôa está a resumir-se à ilha de Santiago. Dizem também que havia cimbôa nas ilhas de Santo Antão e São Nicolau”.

Cimbôa em Macau

Gil Moreira esteve a representar Cabo Verde em Macau (China) no Festival de Artes e Cultura entre China e Lusofonia para mostrar a cimbôa. “Fui convidado pelo Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas para representar Cabo Verde no Festival de Artes e Cultura entre China e Lusofonia em Macau e realmente foi uma boa experiência”.

Conforme Gil Moreira, a cimbôa foi utilizada na ladainha, na reza, no choro, na tabanca. “O objectivo é levar a cultura folclórica, na sua vertente mais genuína, que é o que está faltar em Cabo Verde”.

“Em Cabo Verde é necessário fazer aquilo que estamos a fazer, que é semear a cimbôa. Construir a cimbôa não só para colocar na parede para servir de enfeite, mas tê-la como um instrumento folclórico”, avança.

O músico afirma que quer que os jovens se interessem por esse instrumento musical. “Queremos sangue novo, no sentido de trazer os jovens com perspectivas para o futuro a tocar a cimbôa e a fazer um orquestramento tradicional da cimbôa mesmo como terreiro de batuque na sua vertente mais tradicional”.

Além disso, o activista cultural quer criar em cada concelho e ilha, pelo menos um grupo de batuque devidamente trabalhado e jovem com dom, com paixão na representatividade etno-cultural cabo-verdiano e que faz com que este projecto tenha continuidade.

Conforme disse, depois da “Tradição da Alma”, vão para a segunda fase do projecto que é a sua expansão. “Primeiro é semear, depois vamos fazer o lançamento para mostrar que já temos cimenteira feita, a partir daí queremos que o Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas, Instituto de Investigação e Promoção Cultural e outras instituições Centros Culturais dos restantes concelhos da ilha de Santiago e, futuramente das outras ilhas, criem elementos vivos em cada concelho, para que haja um representante da cimbôa”.

Para o músico, a cimbôa é mais do que um instrumento simples para ver, ouvir e curtir o seu timbre de toque, é um símbolo da vivência cultural, da valorização e do percurso da miscigenação das ilhas.

“Cimbôa é um instrumento tocante, transporta a alma, a vivência e a cultura imaterial de um povo, é um cartão representativo daquilo que foi a tradicionalidade etno-cultural do povo das ilhas de Cabo Verde, sobretudo na ilha de Santiago”, sublinha.

Já o projecto de “Tradição na Alma” vai em paralelo com o projecto narração oral, que é contação de estórias. “Os nossos velhos contavam-nos estórias. Batuque, finação são modalidade do conto de estórias, é uma narração da vivência do povo das ilhas, da tristeza, da alegria, de simples brincadeira etno e do surgimento da situação do quotidiano simples, então é essa a razão de levar a cimbôa em parceria com a narração oral”.

Este projecto será lançado em Outubro próximo, “caso houver mais apoio, porque o Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas não colaborou na totalidade, deu-nos uma parte do orçamento e uma carta conforte para conseguirmos apoios junto das instituições”, sublinha.

Há convite para Gil Moreira levar a cimbôa para Portugal. “Temos um convite de Miguel Horta para o Fórum Educa-Pólio, que é um projecto em Lisboa, onde vou levar a cimbôa em comunicação no campo de miscigenação cultural cabo-verdiana”.

Tocadores de cimbôa

Além de Gil Moreira, este instrumento musical é tocado por outros músicos como Pascoal Fernandes em São Domingos. “Pascoal Fernandes é um confeccionador e tocador de cimbôa, aprendeu com Nhu Manu Mendi que é o mestre deste instrumento musical na ilha de Santiago. Um dos mestres porque tem também Nhu Henrique em Tarrafal que, juntamento com Nha Bibinha Kabral, foi um grande tocador de cimbôa”.

Bana em Renque Burga, interior de Santiago, Mário Lúcio, Tó Tavares, Nhô Eugénio de Tarrafal são outros tocadores de cimbôa.

Conforme o activista cultural, cimbôa é um instrumento simples que no tempo da escravatura era utilizado nas suas manifestações culturais. “É um instrumento simples e natural. Antes era feito com coco, mas com a seca passou a ser feito com cabaz, com crina-de-cavalo, de forma tradicional”.

“Actualmente está muito complicado fazer cimbôa porque o material que produz cimbôa não está fácil de encontrar na ilha de Santiago para confeccionar e dar início ao projecto Cimenteira de Cimbôa”.

Em relação ao rabo-de-cavalo disse que tem de vir da ilha do Fogo, porque a ilha de Santiago está com poucos cavalos. “Deixamos de fazer cimbôa com coco, por causa da falta de chuva. Com isso, a cimbôa ficou do tamanho de ovo de galinha, o que não dá caixa-de-ressonância”.

Para Gil Moreira, a cimbôa é um instrumento para ser feito em quantidade e deveria estar no mesmo patamar que a guitarra, gaita e outros instrumentos musicais. “Houve uma tentativa de colocar a cimbôa no mesmo patamar que outros instrumentos como a guitarra. Com a independência nacional, logo nos anos 80, a Direcção-Geral da Cultura criou um projecto forte para fazer reviver todos os instrumentos musicais que antes não era valorizado”.

Acrescentou ainda que houve uma política de criação deste instrumento, mas não conseguiram que a cimbôa tivesse o mesmo feito que os outros.

Ainda em relação à contação de estórias, disse que o cabo-verdiano Adriano Reis da Associação RJ, que reside em Portugal, tem levado esta tradição para vários países, no âmbito do projecto “Beber na Fonte”.

Fonte: Expresso das Ilhas 

Por | 2019-09-10T06:16:47+00:00 10 de Setembro de 2019|Categorias: Arte, Cultura||0 Comentários

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