Goa: Bonderam – a Festa das Bandeiras

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Goa: Bonderam – a Festa das Bandeiras

Tudo começou com uma disputa. Esta é a fronteira. Nem penses em meter cá o pé!

E o que é que tudo isto tem a ver com a festa das bandeiras?  O  Bonderam –que se celebra na ilha de Divar em Goa?

Reza a história,  que há 500 anos atrás, existiam duas ilhas opostas a Ella (hoje Velha Goa): Malar e Divar.

Quando os Portugueses chegaram a Goa, em 1510, Afonso de Albuquerque estabeleceu o Estado da Índia sendo a capital Velha Goa. Do outro lado do rio Mandovi lá continuavam as duas ilhas. Para reunir forças, as duas ilhas uniram-se através de diques, fortificações e comportas, no que hoje é a ilha de Divar.

Esta história perdeu-se no tempo, mas ficou o que se deu após a unificação.

As pessoas da ilha queriam continuar a saber qual era a parte que lhes pertencia. As duas partes deveriam manter o mesmo tamanho e como tal separaram a fronteira atravém de bandeiras.

Para que a demarcação fosse bem visível, os habitantes de cada parte, marchavam até à fronteira com tambores e trompetes e implicavam com os vizinhos. Tem de se perceber que “implicar” naqueles tempos significava sangue derramado.

Hoje já não há sangue claro, mas há o chamado “fottash”. É um pedaço de bambu, oco por dentro. Como munição usam-se pequenas sementes verdes que se chamam teflãs e que se usam no caril goês para dar um bom aroma. Para empurrar as sementes usa-se um pau fininho (também feito de bambu) que entra dentro do cano oco. A semente bem apontada dá um estalo quando acerta na pessoa. Já fui atingida pelo “fottash”. Não vou dizer que não doeu, mas o aroma do teflã é maravilhoso e é essa a memória que eu tenho do meu encontro com a “terrível” arma.

A ideia da separação de terras foi gradualmente desaparecendo e hoje o Bonderam está ligado à festa da colheita.

A Novidade é a altura do ano quando as espigas do arroz estão prontas a ser ceifadas. Em Goa é um momento importante. O padre vai até aos arrozais, seguido dos habitantes para a ceifa da primeira espiga que é levada em procissão até à igreja da aldeia como uma oferta a Deus pela boa colheita. Chama-se em Concani (língua oficial de Goa): “konsachem fest”.

Uma semana antes da Novidade celebra-se o Bonderam. Celebra-se? Sim, celebra-se. Não há cá disputas.

No quarto sábado do mês de Agosto, em Divar, o desfile vai começar. Em frente vão as bandeiras e depois os carros alegóricos. Há muitas danças pelo meio e as bandas mais conhecidas de Goa lá estarão para animar a festa. A crianças gritam alegremente “Viva Bonderam” e como memória esquecida das disputas ficou apenas o “fottash”. No domingo seguinte será a altura da colheita.

 

 

Por | 2018-08-26T09:24:57+00:00 26 de Agosto de 2018|Categorias: Cultura||0 Comentários

Sobre o autor:

De origem goesa, nasceu em Lisboa e decidiu mudar-se para Goa onde vive há 19 anos. Os aspectos multi-culturais inerentes à sua pessoa e o seu espírito positivo são visíveis em tudo o que faz. Dedica-se de corpo e alma...
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