“É assim que me sinto aqui…aprendiz de construção”

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“É assim que me sinto aqui…aprendiz de construção”

As férias passadas em São Tomé e Príncipe, em 2018, levaram Maria Sameiro Mendes a repensar na vida, numa fase em que necessitava “de me encontrar comigo mesma”.  Bastaram duas semanas de “tranquilidade e choque cultural” para que a portuguesa Maria Mendes visse a sua vida e as prioridades “transformadas”. Em conversa com a Somos! confessa que foi o “coração das pessoas” que a levou definitivamente até São Tomé e Príncipe, em janeiro de 2019.

SOMOS! – Começamos pelo fim, Maria, que coração é esse?

Maria Mendes – Há uma genuinidade imensa no povo de São Tomé, até ingenuidade pueril na maioria das pessoas. Sendo eles naturalmente sobreviventes, recolectores da natureza, não deixam de ser altruístas e generosos com o pouco que possuem. Aquando da minha estadia de férias, em 2018,  motivado pelo meu sorriso de orelha a orelha que diariamente trazia, as donas da casa onde me hospedei fizeram o desafio de as substituir nos cuidados da casa de hóspedes porque precisavam regressar a Portugal.

SOMOS! – E não resistiu…

Maria Mendes – No início pareceu-me quase impossível, dado que tinha toda uma vida organizada em Portugal e não tinha condições para largar o trabalho e viver em São Tomé sem rendimentos. A verdade é que a viagem delas antecipou-se, fiquei no alojamento e deparei-me com a realidade de viver ali sozinha. Uma noite de lua cheia, depositada no mar, deu-me a resposta. O misto de descoberta da possibilidade de uma vida nova e simples e a beleza do local abriram-me a mente e o coração para a possibilidade da vida me estar a dar outro caminho que sentia, claramente, mais próximo de mim. Fim das férias, falei com os filhos, arrendei a casa, despedi-me do trabalho e, 3 meses depois, estava a começar uma nova vida, sem planos nem projetos. Só vontade de mudar as bases da minha vida.

SOMOS! – Não deve ter sido uma mudança fácil, sobretudo atendendo a realidades tão diferentes.

Maria Mendes – Para viver no alojamento sem despesas, cuido do espaço e recebo os hóspedes. Cozinho e assim ganho o meu sustento. Como percebi que me sobraria tempo e já tinha detetado dificuldades de aprendizagem nas crianças  decidi criar uma forma de ajudar na matéria escolar, mas foi uma ideia de pouca dura.

SOMOS! – Porquê?

Maria Mendes – As matérias lecionadas são de tal modo arcaicas e obsoletas que decidi ajudar com outros métodos. Abrir janelas para o mundo e para novas realidades que desconhecem. Pintamos, lemos, vemos filmes e documentários, tudo no meu telefone porque não tenho computador nem televisão (risos). Falamos de direitos humanos, proteção do clima e do ambiente, sexualidade na adolescência, outras culturas e religiões. Assim passo os meus dias. Sem ter propriamente um projeto, vivo o dia a dia atenta às dificuldades que vivem, deteto situações urgentes e movo meios para dar respostas.

SOMOS! – Qual a realidade de São Tomé, considerada, por muitos, a ilha de sonho.

Maria Mendes – São Tomé não é um paraíso! Não há paraíso onde vês miséria, ignorância e exploração.  Só vê aqui o paraíso quem usar palas e só olhar a paisagem. Poderá ser o paraíso da alma se ajudarem a criar um novo mundo, porque aí sim…o potencial de recomeçar é enorme. Onde não há nada também há a possibilidade de fazer muito e bem.

SOMOS! – E falta quase tudo para que esse “mundo novo” seja criado…

Maria Mendes – Em São Tomé falta tudo o que considero essencial ao bem-estar de uma pessoa. As opções políticas apontam para o chamado progresso, mas apenas satisfazem os interesses de poucos. Interesses esses bastante duvidosos. Por tal, como em qualquer parte do planeta, os mais fracos vivem mal. Não existe sistema nacional de saúde pública.  Não existem meios de diagnóstico, não existem especialistas em nenhuma das medicinas. Morre-se sem saber de quê, vive-se sem saber como. As situações mais básicas aqui são complicadas. Os processos de junta médica são morosos e seletivos. Só os ricos se safam.

SOMOS! – Há alguma situação que a tenha marcado particularmente?

Maria Mendes – Há uns meses conheci um bebé, na altura com 3 meses, que nasceu com espinha bífida. Teria que ser operado em 48 horas após o nascimento. A cirurgia teria que ser feita fora de São Tomé. A família não tinha possibilidades de fazer sequer o BI do menino, muito menos o passaporte que custa tanto como em Portugal. Foram abandonados pelo sistema… Tentei ajuda por parte das autoridades locais, ação social, Câmara,  hospital, etc….sem respostas. Aos 3 meses de vida, conheci-o e movi meios pessoais para o ajudar. Já tem passaporte e aguardo ajuda em Portugal para os acolherem durante o processo médico. Uma situação que em Portugal qualquer pessoa teria sido tratada no parto. Ao nível de saúde a situação é  muito grave! Não há investimento no hospital a nível de pessoal ou técnicos na área.

SOMOS! – E o mesmo se passa no sistema de educação?

Maria Mendes – Ao nível da educação é idêntico. Um jovem  que viva a 20km da capital não pode ir para a universidade porque não tem transporte compatível com os horários e necessidades financeiras. Apenas 20km matam os sonhos de prosseguir com os estudos. Necessitam de 5 euros por dia só de transporte e na maioria das famílias não ganham isso para 5 pessoas comerem. Em São Tomé falta tudo, tudo o que nós achamos necessário para uma vida digna. Falta trabalho, e, sobretudo, falta vontade de trabalhar.

SOMOS! – Não podemos olhar as outras culturas com a “nossa” visão…

Maria Mendes – Não podemos olhar são Tomé e Príncipe com os mesmos olhos que vemos Portugal. Para se viver aqui há que baixar muito a fasquia das necessidades e abandonar padrões europeus.

SOMOS! – E qual é a sua?

Maria Mendes – A minha visão é um pouco diferente da maioria dos portugueses que estão cá. O sistema político, a organização empresarial, a cultura e as mentalidades do povo são incompatíveis com os padrões de exigência europeus. Aos nossos olhos, o país está irremediavelmente falido, perdido e com carências tão profundas que será como remendar um pano que tem mais buracos que tecido. Só vejo uma solução, e é com essa base que quero continuar aqui, recomeçar o país.  Recriar hábitos, construir novas necessidades, novos métodos, longe dos nossos padrões. Voltar os homens para terra, para o mar, cuidar dos recursos naturais. Viver em comunhão com a natureza.

SOMOS! – Há, portanto, uma espécie de importação da ocidentalização?

Maria Mendes – Insistir em impor critérios iguais só aumenta a desigualdade social. O sistema político está demasiado dependente de interesses externos, duvidosos e isentos princípios solidários. Pode parecer retrocesso, mas será progredir. Este povo não tem meios para competir com um mundo à nossa imagem. O que pretendo é ajudar quem por mim se cruza, criar novas realidades, paralelas se necessário, que vão de encontro às necessidades das pessoas. Desenvolver economias de proximidade, sustentáveis e não nocivas. Educar para a cidadania e responsabilidade ambiental. Criar ferramentas de luta pela igualdade, abrir horizontes e pensamento critico. Coisas que o sistema não ensina, não tem interesse em ensinar.

SOMOS! – Ou seja…

Maria Mendes – Ajudar com experiências, conhecimento, partilha de saber; mais do que com doações de material. Há necessidade de gente que possa ensinar a construir casas sem destruição massiva da floresta, ensinar economia doméstica, agricultura familiar, pesca artesanal, fabrico artesanal com matérias orgânicas, que são desperdício na natureza. A educação será o caminho.  Então, para se viver aqui há que pôr de lado os padrões europeus, ser proactivo em relação às desigualdades alheias, ajudar a criar oportunidades para os mais fracos. Aqui vive-se numa imitação grosseira da vida dos colonos. Foi lhe roubada a essência africana e não lhes é dada outra verdadeiramente desenvolvida. Vivem num limbo… tentam imitar o europeu, mas são um produto contrafeito. Há que resgatar África dentro deles.

SOMOS! –  E quem é a Maria Mendes nessa África?

Maria Mendes – A Maria Mendes em África tenta ser mais pessoa. Tenta encontrar-se na sua essência, tenta ser útil e é uma construtora de humanidade. É assim que me sinto aqui…aprendiz de construção. Quero ajudar a construir bem, fora do sistema capitalista e fazer nascer gente em cada um. Fazer-me a mim e mais gente também.

Por | 2020-08-06T15:02:28+00:00 6 de Agosto de 2020|Categorias: Personalidade, Sociedade||0 Comentários

Sobre o autor:

Marta Pereira
Marta Pereira é licenciada em Ciências da Comunicação - Jornalismo - na Universidade da Beira Interior, Covilhã, cidade onde nasceu. Actualmente, frequenta o Mestrado em Estudos Lusófonos na mesma instituição. É produtora de rádio em Macau e jornalista em Portugal....
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