Moçambique: Infertilidade – um problema de saúde pública que “rouba” sonhos e destrói lares

/Moçambique: Infertilidade – um problema de saúde pública que “rouba” sonhos e destrói lares

Moçambique: Infertilidade – um problema de saúde pública que “rouba” sonhos e destrói lares

Dados do Inquérito Demográfico e de Saúde de 2011 indicam que, das 13.745 mulheres inquiridas, cinco por cento não têm possibilidade de gerar filhos e, dos 4.035 homens também abrangidos, apenas um por cento tem problemas de infertilidade. De longe, a percentagem parece insignificante, mas, na prática, esconde um drama por que passam muitos casais.

A noite chega, o sono aparece, mas o sonho de muitos casais não se realiza: ter filhos! E porque não há filhos, a culpa recai sempre sobre o lado “mais fraco”, sobre quem, tradicionalmente, é tido como a origem dos problemas. A mulher. Entretanto, nem tudo termina na simples atribuição da culpa. Tudo arrasta-se até à sua humilhação e expulsão do lar. Na verdade, existe o culpado disso tudo e é uma doença chamada infertilidade que pode afectar tanto as mulheres como os homens.

“O País” traz relatos do drama vivido por algumas mulheres que, um dia foram mães, ainda que tenha sido por curto período de tempo e hoje tentam, a todo custo, voltar a sentir o calor de um filho. Para preservarmos as suas imagens, os nomes trazidos nesta reportagem serão fictícios.

O primeiro rosto desta reportagem começa com esta jovem de 30 anos que vamos identificá-la por de Maria. Tal como tantas outras mulheres, ela procura, desesperadamente, realizar o sonho de ser mãe. Aliás, esta não seria a primeira vez que ela seria mãe, pois já teve um bebé há nove anos, mas o mesmo viria a falecer aos três dias de vida.

“Na primeira vez, eu não tive problemas em engravidar. Quase que foi um acidente. No dia do parto disseram-me que o bebé tinha chupado muita sujidade e nem deu o grito que tinha que dar ao nascer. Meu pai foi à incubadora e confirmou que o meu filho havia perdido a vida”, recordou Marta, com voz trémula e um suspiro de tristeza.

E porque a vida seguia e também a realização de um sonho, depois de perder o bebé de três dias, Maria fez várias tentativas, mas nunca mais engravidou. “Fui a vários hospitais. Fiz exames e disseram que estava tudo normal. Até tomei remédios tradicionais e resultou em nada”, revelou Maria.
O seu tratamento podia não resultar em nada, mas as suas tentativas que chegaram a lhe custar pouco mais de 35 mil meticais não puderam evitar que o pior acontecesse: ser expulsa do lar.

“No relacionamento a mãe exigia netos porque o meu marido era filho mais novo. Era muita pressão e acabei saindo de lá porque não estava a dar”, disse Maria num tom de angústia.

Desesperada, volta para casa dos pais de mãos a abanar. Mas este ano iniciou uma nova relação e de novo volta a experimentar o medo de rejeição devido às dificuldades de engravidar. A pressão do seu parceiro em ter um herdeiro já se faz sentir e diante dessa situação, “eu por vezes dá-me vontade de lhe libertar e procurar alguém que não tenha esses problemas”.

E enquanto não liberta o seu parceiro, toda vez que a sua menstruação atrasa renova-se, ainda que timidamente, a esperança de um filho à vista, mas para a sua desilusão, o período desce.

“Agora estou há dois meses sem ver o período, mas não acontece. Até tenho manchas de agulhas no braço de tanto fazer testes de gravidez na ansiedade de que possa ser um filho a caminho, mas sempre dá negativo”, disse Maria com a voz carregada de tristeza.

“NADA E NINGUÉM PODE PREENCHER O VAZIO DE NÃO TER FILHO”

Ainda na cidade de Maputo, encontramos a mulher que vamos chamá-la por Joana. Ela tem uma história diferente da Maria, mas há um denominador comum: também sofre de infertilidade. “Eu fui ao hospital de Chamanculo depois deixei numa de que ainda daria tempo de eu conceber e que ainda estava a organizar a minha vida”, contou a mulher de 48 anos de idade.

O que não sabia era que depois de organizar a sua vida, teria mais uma preocupação bem maior: a dificuldade de engravidar.
“Fui ao curandeiro a qualquer outro sítio que me dissessem que haveria solução para o problema. De lá eu levava medicamento e vinha tomar”, mas em o tratamento hospitalar, nem as ervas e raízes da chamada medicina tradicional conseguiram resolver o problema da Joana.

“Em 2002 perdi o lar. O meu marido conseguiu ter outra esposa que conseguiu conceber. Depois disso, vivíamos os três juntos e não havia paz em casa. Por isso, o meu marido disse que eu tinha que abandonar a casa e deixar a que vai ter filho”, relatou.

Joana cedeu à pressão do marido e abandonou o lar. Voltou à sua casa, mas viu-se mergulhada numa profunda solidão que se impunha ao sonho doce que ela sempre teve, o de ser mãe.

Por isso, teve que pedir à sua irmã que lhe cedesse um sobrinho para viver com ele. Uma solução que não preenche o vazio de não poder ter filho. “Filho não se compra. Mesmo que a criança se comporte como meu filho, nunca vai ser…nunca vai ser meu filho” sublinhou Joana, com lágrimas nos olhos.

Já aos 40 anos de idade, não resta muita coisa a Joana senão se render à evidência de que não podia continua agarrada a um sonho irrealizável. “Dizem que a minha idade já está avançada. Por isso disseram que mesmo operando, a chance de eu voltar a conceber é ínfima. Não quis arriscar e deixei assim. Estou a espera do dia que Deus decidir perdoar e dar filhos”.

A infertilidade é um problema que também afecta os homens. Dados do inquérito demográfico e de saúde de 2011 indicam que dos 4.035 homens inqueridos, apenas um por cento é que não tinha capacidade de gerar filhos. Uma percentagem que pode não reflectir a realidade, segundo alerta o sociólogo Torres Cumbe.

“Questões de busca de alguma solução para ver quem, realmente, faz ou não faz filho a situação recai sobre a mulher e é esta mulher que é forçada para fazer os testes. Entretanto surgem situações em que, na verdade, não é a mulher que não concebe, o problema está com o homem”, acautelou Torres Cumbe.

CAUSAS DA INFERTILIDADE MASCULINA E FEMININA

 A medicina explica que a infertilidade feminina pode ser causada por deficiência no funcionamento do ovário e a masculina pode estar relacionada com a qualidade e quantidade do espermatozóide.

“A mulher liberta um ovo, mensalmente e este processo pode falhar”, advertiu Agostinho Daniel, revelando que esta irregularidade a libertação do ovo leva a uma menor probabilidade de haver gravidez. Já nos homens, “há indivíduos que tem pouco espermatozóide, defeito e outra ausência absoluta do espermatozóide. Aí não há condições para que se gere um filho”.

O especialista alerta ainda que a frequência com que certos casais praticam relações sexuais pode causar a infertilidade.
“Diz que um casal pratica sexo regular quando, no mínimo, o faz duas a três vezes por semana. Um casal que por hábito só tem sexo uma vez por mês poderá ter infertilidade com origem neste problema que é baixíssima frequência da relação sexual”, afirmou Agostinho Daniel, médico especialista do Hospital Central de Maputo.

Tomar banho frequentemente com água morna, falta de exercícios físicos, consumo de drogas e alimentação pouco saudável também podem causar a infertilidade. Por isso, às pessoas que sofrem da doença recomenda-se que se dirijam à unidade sanitária para poder se identificar a origem do problema e trazer possíveis soluções. Por exemplo, “se é endometriose tem que se resolver esse aspecto, se é obstrução tubar deve-se devolver a potência das trompas e isso pode ser feito por cirurgia que visa libertá-las, recanalizar e deste modo reestabelecer a fertilidade da mulher.

Reportagem: O País

Por | 2019-08-06T06:07:51+00:00 6 de Agosto de 2019|Categorias: Sociedade||0 Comentários

Sobre o autor:

Somos
Multiplataforma de comunicação numa mesma língua que junta contadores de estórias de Macau, da China e de todos os espaços do universo lusófono.

Deixe um comentário